Os Apaziguadores

Sidónio Muralha (1920 – 1982), uma das vozes mais significativas do neo-realismo, publicou uma vasta obra poética, alguns ensaios, dois livros de contos, isto para além da dezena e meia de títulos de literatura infantil. Foi incluído em algumas antologias tanto de poesia como de literatura para a infância

A tribo é indócil.
Os apaziguadores são boas pessoas.
Eles cantam a paz
na boca das armas.
Eles desarmam as bocas
quando cantam a paz.
Só não desarmam as armas
porque a paz desarmada
passaria a ser paz
e eles ficariam desempregados
porque não há apaziguadores
em tempo de paz.
 
O medo tocou os apaziguadores,
o medo tocou o gatilho das armas,
e os indóceis ficaram apaziguados,
definitivamente apaziguados,
horizontalmente apaziguados.
 
E os apaziguadores voltaram aos lares
e com gestos medidos e apaziguados
guardaram as armas, lavaram as mãos,
e distribuíram beijos pacificamente
a toda a família.
 
In “Cem Poemas Portugueses do Riso  e do Maldizer”
Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria
Editora Terramar

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