“Dois corpos tombando na agua” -Alice Vieira


desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas, os sinais, a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor

e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas, noutra pele

prometo que não choro, mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves da casa e os documentos do carro
– e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste

esperei por ti em todos os lugares errados
– a quem pedir agora explicações?

Viver diziam-me era assim e não havia
Mistério nenhum nisso apenas
Um roteiro obscuro estabelecido
Entre o que tem de acontecer e aquilo
Que não acontece nunca

Perdemo-nos então
Por pensamentos, palavras, actos e omissões
E todas as palavras recuaram por infinitos precipícios
Sem reconhecerem o som da nossa voz
Nem o eco das noites em que todas
Nos tinham pertencido
alice-vieira

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One comment on ““Dois corpos tombando na agua” -Alice Vieira

  1. Muito obrigado a Ana Rodrigues da UGIRT pola publicación deste post durante a sesión de formación en Rio Tinto a pasada sexta-feira. Bem-vinda ao blog En-RED-Versados, xunto con todos os alumnos e alumnas da UGIRT. Foi un pracer estar con voçes en Rio Tinto

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